O Massacre do Monte Meadows

No dia 11 de setembro de 1857 uma companhia de carroções viajando através de Utah foi emboscada e seus quase 120 membros foram mortos no que é hoje conhecido como o Massacre do Monte Meadows. Cometido por uma força da milícia Mórmon e os Índios Piute da parte sul de Utah, a tragédia tem sido um tópico de curiosidade e controvérsia à medida que os Mórmons e historiadores se esforçam para entender o evento, e os críticos de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (ou Igreja Mórmon) procuram explorar o tema para os seus próprios propósitos.

No verão de 1857 os Mórmons estavam celebrando o décimo aniversário de sua chegada ao Vale de Salt Lake, e eles estavam passando por uma reforma religiosa porque muitos tinham, infelizmente, começado a desenvolver uma atitude apática para com sua religião. Neste clima o Presidente da Igreja, Brigham Young, e o Apóstolo George A. Smith, pronunciaram sermões calorosos para as pessoas. Então o Presidente Brigham Young recebeu a notícia que o Presidente dos EUA, James Buchanan, havia cortado todo o serviço de correspondência para Utah e secretamente apontou um novo governador territorial, Alfred Cumming, para “restaurar a ordem” com a ajuda de tropas federais. Não havia nada realmente “fora de ordem”, mas muitos políticos corruptos do território de Utah tinham ficado furiosos com os Mórmons por causa de seus votos em massa e de sua sujeição ao Governador Brigham Young, e eles voltaram para o leste com relatórios falsos de traição e insurreição entre os Mórmons. O Partido Republicano exigiu que uma ação fosse tomada, e o Presidente respondeu com uma ação qual é conhecida hoje como “O Disparate de Buchanan”. Os Mórmons não haviam esquecido as perseguições extremas e as múltiplas expulsões que sofreram antes desses dez anos de paz relativa que tiveram em Utah, e eles decidiram que não seriam mais expulsos. Brigham Young declarou a lei marcial, reorganizou a extinta Legião Nauvoo, e preparou para defender o seu povo em uma possível guerra com os Estados Unidos. Ele também solicitou a assistência das tribos de índios vizinhas, alegando que os Mórmons e os Índios precisavam estar juntos para evitar a destruição. Essas várias ações, conhecidas como A Guerra de Utah, acabou sendo algo pacífico, mas foi nessa atmosfera tensa que a Companhia Baker-Fancher entrou em Utah em julho.

A companhia de carroções chegou em Salt Lake City pela Trilha de Oregon. Guiada por John T. Baker e Alexander Fancher, o grupo havia começado a sua jornada no Arkansas e no Missouri e estavam a caminho da Califórnia. Viajando ao sul da cidade, esse grupo de homens, mulheres e crianças planejavam atingir a antiga Trilha Espanhola e continuar sua viagem para o oeste.

Inicialmente, os colonos Mórmons tiveram pouca ou nenhuma informação sobre a companhia Baker-Fancher, uma vez que essa era só uma das inúmeras companhias que passavam por ali anualmente. Começando em Fillmore, entretanto, muitos relatos começaram a surgir de comportamentos grosseiros e ameaças da parte dos viajantes. Os Mórmons alegavam que os membros da companhia que vinham do Missouri, que se autodenominavam Missouri Wildcats (Gatos Selvagens do Missouri), estavam se gabando de participar da expulsão dos Mórmons do Missouri e Illinois e até mesmo de ter matado o profeta Mórmon Joseph Smith e seu irmão Hyrum na cadeia de Carthage. Um outro líder da Igreja, Parley Pratt, havia sido morto no Arkansas em maio de 1857 e os membros da companhia que vinha da região declaravam orgulhosamente serem os responsáveis por aquele incidente. Os emigrantes aparentemente ameaçaram que, depois que chegassem à Califórnia, eles voltariam para ajudar o Exército Americano a lidar com os Mórmons. Houve também relatos que a companhia envenenou um riacho, o qual resultou em algumas mortes e doenças aos brancos e aos índios que viviam na região. Ainda que as verdades desses fatos não possam ser verificadas, eles ilustraram que os colonos Mórmons se sentiram seriamente ameaçados. O que quer que tenha provocado a contensão entre os Mórmons e os emigrantes, não poderia ter vindo em uma época mais perigosa. Já no limite por causa da guerra que estava para começar, alguns Mórmons podem ter permitido a possível associação entre os emigrantes e o assassinato dos líderes da Igreja Mórmon para provocá-los ao instigante Massacre do Monte Meadows.

No início de setembro os emigrantes chegaram ao Monte Meadows, uma terra de pasto fora da Cidade de Cedar, para descansar seus animais e deixá-los pastar antes da caminhada final até o deserto da Califórnia. Ao mesmo tempo, os líderes da milícia do Condado de Iron, tendo ouvido os relatos e os rumores sobre as ameaças feitas pelos emigrantes, estava discutindo sobre o que deveriam fazer com aquela companhia. Inicialmente eles enviaram mensageiros para os colonos próximos com a ordem de deixar os emigrantes em paz, mas o Major Isaac Haight concedeu um plano para incitar os Índios Piute locais contra os emigrantes, tendo John D. Lee como o seu líder. Lee partiu no dia 5 de setembro para dar continuidade ao plano. O grau no qual os índios estavam realmente envolvidos é um tema de debate polar. Alguns dizem que eles não estavam envolvidos de forma alguma com o incidente, e que foram os Mórmons que se disfarçaram de índios; outros dizem que os índios já estavam furiosos e os Mórmons estavam segurando-os até decidirem o que deveriam fazer. Em uma reunião do conselho do Condado de Iron, no dia 6 de setembro, as opiniões estavam divididas. Isaac Haight queria agir, mas Laban Morrill finalmente o persuadiu a inquirir a Brigham Young sobre o que fazer.

Na manha de segunda-feira, 7 de setembro, James Haslam viajou para Salt Lake City para obter instruções de Brigham Young. Mensageiros também foram enviados para falar com Lee, com a mensagem que ele deveria proteger os emigrantes dos índios até que futuras ordens fossem dadas – mas já era muito tarde. Entre o anoitecer e o amanhecer, os índios atacaram o acampamento no Monte Meadows, matando vários e ferindo muitos outros. Os emigrantes se protegeram, matando e ferindo vários dos que os estavam atacando, e o conflito foi tamanho que durou os próximos quatro dias. Quando os mensageiros chegaram ao Monte Meadows, Lee havia ido ao sul de Utah para passar a noite perto do Cânion de Santa Clara. A mensagem somente foi entregue a Lee na terça-feira à tarde.

A batalha continuou, mas na quarta-feira à noite, dia 9 de setembro, dois dos emigrantes escaparam dos índios e se dirigiram a Cidade de Cedar para pedir ajuda. No caminho eles se encontraram com alguns membros da milícia que eles pensaram que os ajudaria. Isso indica que os emigrantes estavam sobre a impressão que os que os atacavam não eram colonos Mórmons. Quando esses membros da milícia deram conta de quem esses dois homens eram, eles atacaram os viajantes, matando um deles; mas o outro escapou e voltou para o acampamento. Parece que esse evento selou o destino da companhia Baker-Fancher. Por anos os Mórmons do sul de Utah ouviam rumores que os Californianos estavam vindo para varrê-los daquele lugar. Esse medo, acompanhado da ameaça da guerra eminente e a raiva com o comportamento dos emigrantes, foi demais. Os colonos aparentemente acreditavam que o emigrante que conseguiu voltar para o acampamento diria aos outros que foi os Mórmons, e não os índios, que estavam lutando contra eles, e se qualquer desses emigrantes chegasse à Califórnia agora, eles certamente atiçariam uma turba para voltar e atacar os Mórmons. O pensamento de enfrentar o Exército Americano foi mau o suficiente; a perspectiva de ter que enfrentar um segundo exército vindo do Oeste foi intolerável.

No dia 10 de setembro James Haslam chegou a Salt Lake City com a mensagem para Brigham Young. Com uma hora o mensageiro teve uma resposta e começou a viajem de volta para a Cidade de Cedar. A mensagem de Brigham Young dizia: “com relação às companhias de emigrantes que estão passando por nossos assentamentos, devemos não interferir-lhes até que tenha sido primeiro avisados para manter a distância. Vocês devem não se intrometer com eles. Os índios esperamos que façam de acordo com a vontade deles, mas vocês devem tentar ter e preservar bons sentimentos para com eles”. Essas instruções, guardadas até hoje nos arquivos da Igreja Mórmon, não chegou a tempo para parar o Massacre do Monte Meadows.

Na manhã de sexta-feira, dia 11 de setembro, cerca de 50 a 60 membros da milícia estavam agora no Monte Meadows. Uma bandeira de trégua foi enviada ao acampamento e respondida por um Sr. Hamilton. Lee falou com ele e propôs que se eles entregassem as suas armas, os índios os deixariam em paz, e os Mórmons lhes dariam passagem segura até a Cidade de Cedar até que eles pudessem retomar seu caminho para a Califórnia. Com pouca munição e descanso, com vários mortos e muitos outros morrendo devido aos ferimentos, os emigrantes aceitaram a oferta. As suas armas foram colocadas em um carroção e os feridos em outro. Eles seguiram em fila indiana, os carroções, as mulheres e crianças, e então os homens. Cada homem tinha um membro da milícia ao seu lado direito. Quando se aproximaram de um caminho cheio de carvalhos e cedros, o líder da marcha deu um sinal, o que se pretende que seja “Faça o seu Dever!”. Cada membro da milícia se virou para o emigrante que ele estava acompanhando e atirou nele. Por detrás das árvores, os índios caíram sobre os emigrantes também. Algumas pessoas tentaram escapar a ordem inicial, mas foram perseguidos e mortos. Somente as crianças mais novas foram poupadas; os registros indicam o número de dezessete crianças.

Jacob Haslam entregou a resposta de Brigham Young para Isaac Haight no dia 13 de setembro, dois dias depois do massacre. John D. Lee foi mais tarde enviado a Salt Lake City para fazer um relato do acontecido para Brigham Young. Os líderes locais a princípio indicaram o incidente como um ataque dos índios. Nos anos seguintes nada foi feito devido à chegada do exército e do novo governador. Quando as evidências e acusações começaram a implicar que havia sido os colonos, Brigham Young pediu para o novo Governador Cumming que investigasse o acontecido. Foi a opinião de Cumming que qualquer coisa cometida por brancos fosse perdoado devido a anistia concedida pelo Presidente Buchanan em junho de 1858 na Guerra de Utah, então nenhuma investigação formal foi feita naquela época. Muitos relatos contemporâneos foram feitos, incluindo um por Mark Twain, em Roughing it (Passando aperto), mas como todo assunto concernente aos Mórmons, esse também já foi dividido e os relatos foram distorcidos de uma forma ou de outra. A habilidade dos críticos Mórmons de descrever os eventos em detalhes, como o fazem, é duvidosa, uma vez que os únicos sobreviventes foram crianças pequenas, e os participantes certamente não falavam sobre o assunto.

Muitos no Arkansas estavam furiosos com o incidente, e pressões foram feitas para uma investigação federal completa do incidente. Entretanto, em apenas poucos anos começou a Guerra Civil e o assunto foi praticamente esquecido até que foi novamente relembrado na década de 1870. Naquela época 15 anos já haviam se passado desde o Massacre do Monte Meadows; os temperamentos haviam se acalmados e muitas das evidências haviam desaparecido. Indiferente da culpa ou inocência dos participantes, os Mórmons se uniram para proteger os seus de julgamentos injustos que eles imaginaram que teriam que passar novamente. Quando as investigações finalmente iniciaram de forma sincera, era difícil para os promotores fazer um caso substancial. Depois de dois julgamentos, John D. Lee foi condenado e sentenciado a morte. Ele foi executado e sepultado em Panguitch, Utah, em 1877, e foi a única pessoa julgada e condenada pelo envolvimento do Massacre do Monte Meadows.

Os membros da Igreja Mórmon hoje em dia não procuram justificar as ações tomadas por apenas alguns poucos Mórmons que saíram do caminho correto. Indiferente das pressões da vida, os Mórmons fiéis entendem a importância de guardar os mandamentos e de se esforçar para sempre fazer o bem. Imperfeitos como são, eles trabalham continuamente para melhorar-se como indivíduos e como comunidade, se aproximando cada vez mais dos ensinamentos deixado por seu mestre perfeito, Jesus Cristo.

 

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